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âmago

por Manuel P., em 21.07.16

 

Na esteira de um passado distante brotam sementes de âmago

e num recôndito sacrárop um iminente grito aguarda,

enquanto na penumbra da noite uma luz persiste ofegante

em quebrar a obscura névoa efesvescente.

 

No rochedo já o sangue seca à luz da manhã

e o estremecer da luz incendeia os corpos terrestres

e das entranhas do solo, enormes jazigos de vida ecoam no espaço

leves, brutos, eloquentes.

 

Dos altos ramos das àrvores fantasmas saltam rumo ao suícidio

e o seu sangue derramado alimenta a vida e a morte

o sangue dos fantasmas do passado e do porvir,

o sangue que alimenta a vida das sementes de âmago.

 

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publicado às 20:45

Imaginação

por Manuel P., em 27.10.15

Elicia Edijanto

 

Era um sonho de menino emuldurado rusticamente pela imaginação,

o menino cresceu e o sonho foi perdendo o brilho.

A moldura foi sendo corroida pelo tempo e pelos bichos famintos

o sonho foi perdendo a cor, a textura a definição.

 

Um dia, o menino já grande recordou o sonho emoldurado rusticamente

e partiu em sua busca.

Não encontrou nada mais senão uma tela esbranquiçada outrora coberta de tintas rugosas e cintilantes

com formas perdidas e traços ocultos.

 

O outrora menino, agora crescido chorou por ter perdido o sonho emoldurado pela imaginação

e as lágrimas que soltou cairam sobre a tela agora esbranquiçada, e soltou ainda mais lágrimas.

Até que, resolveu limpar as lágrimas e o ranho que lhe foi cobrindo o inferior da face,

pegou na tela outrora coberta de cores e texturas e agora esbranquiçada e resolveu pintar outro sonho

e pintou.

E quando terminou de pintar o sonho e a tela outrora esbranquiçada estava já repleta de cores e sentidos e texturas

decidiu emuldurar novamente

e continuou a pintar.

 

E a tela outrora abandonada e esbranquiçada deu lugar a um sonho sempre vivo e em mutação,

e o menino que cresceu não deixou de ser menino nem de sonhar nem de viver.

Há demasiadas telas esbranquiçadas espalhadas por ai á espera de serem retocadas,

e demasiada ausência de quem as queira pintar,

mas o outrora menino, esse, continua a pintar, e a brincar com as cores da vida.

 

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publicado às 20:45

Duas linhas

por Manuel P., em 27.10.15

Caspar David Friedrich [Public domain] - Solitary Tree

 

 Haviam duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

 

Haviam duas linhas que delimitavam a estrada da imaginação para algo inatingível,

e um carvalho seco, e pássaros.

 

Haviam histórias jamais contadas, nunca vividas confinadas no espaço de duas linhas,

vidas inexistentes senão no real imaginário de vários pensamentos

e as gentes dessas histórias viviam circunscritas ao espaço definido por essas duas linhas.

 

Havia um orificio no carvalho abandonado à direita, outrora habitado por homunculos

e criaturas da floresta.

Tempos houve onde o carvalho não estava abandonado e não pertencia ao planalto direito

e as duas linhas não delimitavam um caminho nem se extendiam para além do horizonte.

Tempos houve em que em tudo ao redor do carvalho seco e abandonado do lado direito não faltava vida nem criaturas

humanas, humanoides, humos e míticas

e as histórias de encantar brotavam das folhas outrora verdes.

 

E houve um duende e uma fada, uma princesa encantada.

Um império de pequenas criaturas mágicas estendia-se para além da sombra do carvalho outrora vivo

e um outro império veio do além da sombra do carvalho reclamar a sombra para si.

Houve trovas cantadas nos ramos que conseguiam tocar os céus

e houve meninas encantadas por elas suspirando por entre as raizes.

 

Até que um dia,

havia apenas duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

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publicado às 20:28


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