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Noite

por Manuel P., em 31.10.15

Por Lluís Rigalt (1814 - 1894) (Details of artist on Google Art Project) [Public domain], undefined

 

 

A noite prolonga-se pela escuridão dentro embrulhada num silêncio sem fim

e ao longe ecoa os gritos do teu nome.

Faz frio.

 

A lua intermitente por entre as nuvens outrora brancas clama o teu nome

e os bichos taciturnos percorrem em busca do teu sabor

e a noite prolonga-se sem fim pela escuridão.

 

Nas colinas erguem-se castelos

e nos vales as flores cobrem-se de neblina e orvalho,

lagrimas da tua ausência.

Faz sede.

 

E o riacho ao longe não corre

e os peixes hibernam sem sentidos

e a noite cobre-se de escuridão.

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publicado às 01:25

Estilhaços de ti

por Manuel P., em 30.10.15

 

 

Há estilhaços do beijo que não deste espalhados pelo jardim,

e onde as flores não crescem e o sorriso ímpio das formigas prevalece

pedaços do que não houve de ti não esmorece, cresce pela madrugada fora.

 

Nas sombras da laranjeira o herege compactua.

É manhã ou noite ou por do sol, pois a luz tolda os sentidos

e a tarde esmorece e estremece só de pensar em ti.

 

E, no entanto, nesses estilhaços de ti espalhados pelo jardim

há uma refracção impossível de explicar.

Um brilho indómito, um arco-íris permanente e opulente.

 

Quero limpar o jardim, preciso de o fazer,

mas contigo a meu lado.

 

 

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publicado às 20:13

Imaginação

por Manuel P., em 27.10.15

Elicia Edijanto

 

Era um sonho de menino emuldurado rusticamente pela imaginação,

o menino cresceu e o sonho foi perdendo o brilho.

A moldura foi sendo corroida pelo tempo e pelos bichos famintos

o sonho foi perdendo a cor, a textura a definição.

 

Um dia, o menino já grande recordou o sonho emoldurado rusticamente

e partiu em sua busca.

Não encontrou nada mais senão uma tela esbranquiçada outrora coberta de tintas rugosas e cintilantes

com formas perdidas e traços ocultos.

 

O outrora menino, agora crescido chorou por ter perdido o sonho emoldurado pela imaginação

e as lágrimas que soltou cairam sobre a tela agora esbranquiçada, e soltou ainda mais lágrimas.

Até que, resolveu limpar as lágrimas e o ranho que lhe foi cobrindo o inferior da face,

pegou na tela outrora coberta de cores e texturas e agora esbranquiçada e resolveu pintar outro sonho

e pintou.

E quando terminou de pintar o sonho e a tela outrora esbranquiçada estava já repleta de cores e sentidos e texturas

decidiu emuldurar novamente

e continuou a pintar.

 

E a tela outrora abandonada e esbranquiçada deu lugar a um sonho sempre vivo e em mutação,

e o menino que cresceu não deixou de ser menino nem de sonhar nem de viver.

Há demasiadas telas esbranquiçadas espalhadas por ai á espera de serem retocadas,

e demasiada ausência de quem as queira pintar,

mas o outrora menino, esse, continua a pintar, e a brincar com as cores da vida.

 

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publicado às 20:45

Duas linhas

por Manuel P., em 27.10.15

Caspar David Friedrich [Public domain] - Solitary Tree

 

 Haviam duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

 

Haviam duas linhas que delimitavam a estrada da imaginação para algo inatingível,

e um carvalho seco, e pássaros.

 

Haviam histórias jamais contadas, nunca vividas confinadas no espaço de duas linhas,

vidas inexistentes senão no real imaginário de vários pensamentos

e as gentes dessas histórias viviam circunscritas ao espaço definido por essas duas linhas.

 

Havia um orificio no carvalho abandonado à direita, outrora habitado por homunculos

e criaturas da floresta.

Tempos houve onde o carvalho não estava abandonado e não pertencia ao planalto direito

e as duas linhas não delimitavam um caminho nem se extendiam para além do horizonte.

Tempos houve em que em tudo ao redor do carvalho seco e abandonado do lado direito não faltava vida nem criaturas

humanas, humanoides, humos e míticas

e as histórias de encantar brotavam das folhas outrora verdes.

 

E houve um duende e uma fada, uma princesa encantada.

Um império de pequenas criaturas mágicas estendia-se para além da sombra do carvalho outrora vivo

e um outro império veio do além da sombra do carvalho reclamar a sombra para si.

Houve trovas cantadas nos ramos que conseguiam tocar os céus

e houve meninas encantadas por elas suspirando por entre as raizes.

 

Até que um dia,

havia apenas duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

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publicado às 20:28

sonho

por Manuel P., em 03.10.15

 

Quero em ti encerrar os meus sonhos

enterrar os meus suspiros

e soterrar a minha vida.

 

Se ao menos fosse tudo tão fácil

quanto escrever uns miseros versos.

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publicado às 21:07

Oculto prazer

por Manuel P., em 03.10.15

 

 Há um prazer oculto escondido nas brumas sombrias uma calmaria divinal.

Quando o universo em meu redor infringe as leis rígidas das termodinâmicas

e a entropia tende a diminuir e o humunculo desprende das porfundezas escondidas

e, numa acção fantasmagórica atinge o pleno deserto

onde encontra cabeças de crianças outroras plantadas efervescendo ao vento

e cantando nas noites dos outros.

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publicado às 20:13

Líbido

por Manuel P., em 27.08.15

 

 

Conheci um gajo que tinha a líbido no anús,

sempre que amava só fazia merda.

Conheci outro que a tinha na ponta dos dedos dos pés,

ao amar, espalhava-se ao comprido.

 

É muito curiosa essa líbido,

serve de desculpa para tanta estupidez.

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publicado às 22:12

Putefração

por Manuel P., em 20.08.15

http://www.whosay.com/status/maianewley/720705

 

 

Há um odor a putrefacção na democracia que nos fazem passar pelas goelas,

onde apenas vale o querer de alguns.

Há mentiras, cartazes, promessas de amor

impossíveis de terem lugar.



Há cântaros e vidas partidas pela vontade de uns

enquanto outros ostentam o seu orgulho. Há um povo,

sempre o mesmo povo sujeito ao sofrimento vão.



Há medidas cravadas no peito de quem nada tem a não ser obrigação.

Há sede, há falta de pão, de futuro.



Há um povo que jaz em silêncio enquanto os viscondes dançam,

uma dança de palavras e sonhos, tentações e coisas que não o são.



Há um povo que definha na sua própria ilusão.

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publicado às 20:23

Mergulho

por Manuel P., em 15.08.15

 

 

Queria mergulhar nos teus braços e adormecer ao som estridente da noite

percorrer os vales do teu corpo de norte a sul e terminar com os corpos alinhados

numa simbiotica disposição.

 

Não te quero pelo que tens, mas pelo que és

pelo que me fazes ser

e sentir.

 

Não anseio a volubilidade da posse, mas a incerteza da simbiose,

a atracção química das marés. Agora rebentanto aos meus pés

mais distante num futuro breve

mas sempre retornando ao mesmo delirio constante.

 

Num mundo onde as palavras vão perdendo os sentidos

e as forças das físicas prevalecem sobre tudo o resto

procuro um porto de abrigo

onde o sonho possa atracar .

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publicado às 14:30

Ponto final.

por Manuel P., em 14.08.15

 

Todas as frases deveriam terminar num ponto final

Mesmo as que terminam em exclamação.

 

Quando me deste as reticências com sabor a vírgula fiquei à espera,

e esperei, e esperei. Julguei que fosse continuar a história,

repleta de pontos de interrogação e exclamações,

mas o desenrolar não veio, surgiu antes a angustia

velha madrasta do desespero.

 

Quando dei por conta, não eram reticências, mas sim três pontos finais.

Um para o fim do que fomos contruindo, outro para o fim do que estavamos a viver, outro para o terminar do sonho.

 

No fundo, à excepção do ponto final, todos os restantes sinais de pontuação são vagos e inócuos

de interpretações diversas.

Tinhas usado um só ponto final e eu teria já tido usado o ponto de exclamação a triplicar múltiplas vezes.

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publicado às 10:41


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