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âmago

por Manuel P., em 21.07.16

 

Na esteira de um passado distante brotam sementes de âmago

e num recôndito sacrárop um iminente grito aguarda,

enquanto na penumbra da noite uma luz persiste ofegante

em quebrar a obscura névoa efesvescente.

 

No rochedo já o sangue seca à luz da manhã

e o estremecer da luz incendeia os corpos terrestres

e das entranhas do solo, enormes jazigos de vida ecoam no espaço

leves, brutos, eloquentes.

 

Dos altos ramos das àrvores fantasmas saltam rumo ao suícidio

e o seu sangue derramado alimenta a vida e a morte

o sangue dos fantasmas do passado e do porvir,

o sangue que alimenta a vida das sementes de âmago.

 

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publicado às 20:45

Rumo obscuro

por Manuel P., em 21.07.16

 

 

Na verdade,

caminhamos de olhos vendados em direcção incerta,

rompendo a obscuridade da incerteza em passos opacos,

deixando para trás somente um lastro vazio e pegadas sujas.

 

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publicado às 20:38

A Maria que ria aos domingos de manhã

por Manuel P., em 25.05.16

 

    Maria acordava já a manhã ia bem longe, tomava o pequeno almoço, praticava a higiente matinal, punha a farda de trabalho que lhe assentava que nem uma luva e saia para o trabalho. Era assim todos os dias, ou pelo menos quase todos.

 

    Não havia melhor do que Maria no seu ramo, nenhuma alma tinha tanta versatilidade ou colocava tanto emprenho para que o produto final sai-se o mais perfeito possível, e Maria era, durante a semana, alvo de cobiça e olhares invejosos.

 

    Ao Domingo de manhã, Maria tinha uma outra rotina. Acordava cedo, bem cedo, vestia o vestido creme, estilo conservador anos 50 e abalava para a igreja. Não se pode ser totalmente perfeita, todas têm os seus pecados e Maria sabia-o como ninguém. Sentada no fundo, Maria contemplava o desprezo. O Manuel do talho roçou os olhos nela durante o Pai Nosso, encostando-os rapidamente ao chão. Afinal, os prazeres da carne são um pecado mortal, ou devem ser, de acordo com o homem de batina, padre a tempo inteiro ao fim de semana, pecador às terças entre as 11 e a 1 da manhã.

 

Durante meia hora, uma comunidade inteira fingia elevar o seu coração aos céus, em busca da purificação e beatificação, quando na verdade, na crua verdade, metade tinha o sangue a fervilhar de ódio e desprezo, enquanto a outra metade orava a um Deus dos prazeres da carne.

 

A tudo isto Maria achava piada. Maria tinha um sentido de humor estranho a que apensa metade da comunidade achava piada, à excepção do domingo de manhã, pois claro.

 

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publicado às 20:39

desígnio da condição humana

por Manuel P., em 21.11.15

 

 

Quero acreditar que há um desígnio na condição humana

Há um significado na realidade que encontramos.

Porque,

sem isso o sentido do que convivemos é inatingível

e os corpos amontoam-se na crosta terrestre aos milhares.

 

Não há, contudo, um sentido contrário à entropia do universo

os homens que enviam sondas para além da Galáxia são os mesmos que matam

e as mesmas civilizações que condenam à miséria milhões de vidas.


Uns apregoam a paz, e tentam selar a paz com bombas e morteiros

outros clamam a convivência pacífica enquanto escravizam.

Numa pequena igreja, outrora foram dadas juras de amor

e hoje um corpo jaz num cemitério, onde o tempo limpa as feridas.


Há uma inconstância incompreensível em tudo isto.

O poder é perseguido, há lideres natos na condução dos destinos.

Mas onde era suposto ser forjado um destino colectivo comum de prosperidade,

há a ambição pessoal. Não há sensatez comunitária.

E os povos bebem sedentos as palavras de ilusão,

marcham alegremente em guerras que não são deles

entoam orações de paz e amor enquanto ceifam vidas

confrontam-se sem se interrogarem da validade dos argumentos que lhes incutiram.

 

No fundo, a entropia será, provavelmente, o derradeiro destino da raça Humana.

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publicado às 20:33

Noite

por Manuel P., em 31.10.15

Por Lluís Rigalt (1814 - 1894) (Details of artist on Google Art Project) [Public domain], undefined

 

 

A noite prolonga-se pela escuridão dentro embrulhada num silêncio sem fim

e ao longe ecoa os gritos do teu nome.

Faz frio.

 

A lua intermitente por entre as nuvens outrora brancas clama o teu nome

e os bichos taciturnos percorrem em busca do teu sabor

e a noite prolonga-se sem fim pela escuridão.

 

Nas colinas erguem-se castelos

e nos vales as flores cobrem-se de neblina e orvalho,

lagrimas da tua ausência.

Faz sede.

 

E o riacho ao longe não corre

e os peixes hibernam sem sentidos

e a noite cobre-se de escuridão.

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publicado às 01:25

Estilhaços de ti

por Manuel P., em 30.10.15

 

 

Há estilhaços do beijo que não deste espalhados pelo jardim,

e onde as flores não crescem e o sorriso ímpio das formigas prevalece

pedaços do que não houve de ti não esmorece, cresce pela madrugada fora.

 

Nas sombras da laranjeira o herege compactua.

É manhã ou noite ou por do sol, pois a luz tolda os sentidos

e a tarde esmorece e estremece só de pensar em ti.

 

E, no entanto, nesses estilhaços de ti espalhados pelo jardim

há uma refracção impossível de explicar.

Um brilho indómito, um arco-íris permanente e opulente.

 

Quero limpar o jardim, preciso de o fazer,

mas contigo a meu lado.

 

 

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publicado às 20:13

Um fósforo pelo futuro

por Manuel P., em 30.10.15

 

 

Há um país decadente abandonado à espuma dos tempos

onde os novos e os velhos derivam pelas sombras dos dias.

Há um povo sem futuro entregue ao infortúnio

dos castos o ter abandonado às decisões dos outros.


Há moribundos que deambulam pelas ruas

e incultos tomam decisões e os homens não vêm

ou não querem ver

que a alma vai perdendo o brilho e não há luz no horizonte

que ilumine o caminho ou dê um sinal.

 

Por vezes, somos nós que trazemos a candeia apagada

e podemos iluminar o caminho sem nos apercebemos.

Um fósforo pelo futuro.

Lutemos por um singelo fósforo para cada moribundo, e, quem sabe,

não haverá candeias impolutas a iluminar novamente o caminho.

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publicado às 13:36

Uma pedra é uma pedra

por Manuel P., em 28.10.15

 

 

Não sejas uma pedra imóvel á beira da estrada,

rebola um pouco, segue a maresia e  repousa nas areias onde a maré rebenta.

Sente a ondulação rebentar em ti, moldar-te as formas e os sentidos

deixa as ondas levarem-te ao sabor das correntes

mostrar-te o frio, fazer sentir-te o calor dos trópicos e as especiarias.

 

Não sejas somente uma pedra imóvel na berma do caminho,

porque uma pedra é uma pedra, mas a mesma pedra pode ser uma outra pedra,

e se o caminho pode ser um lamaçal o mesmo caminho pode ser o separar de um vale repleto de vida

e um campo de areias e cloreto de sódio.

 

Porque uma pedra é uma pedra mas a mesma pedra pode ser uma outra pedra,

escolhe o tipo de pedra que queres ser, e não deixes ser a pedra que não queres.

 

Porque uma pedra é uma pedra, mas todas as pedras podem ser outra pedra

e a mesma pedra pode estar a beira do caminho,

mas se a pedra quiser, é uma pedra de uma parede de um castelo,

se a pedra quiser é uma pedra de um moinho

ou uma pedra adormecida pelo riacho ou uma montanha.

Mas se a pedra não quiser,

é apenas uma pequena e simples pedra.

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publicado às 21:53

Imaginação

por Manuel P., em 27.10.15

Elicia Edijanto

 

Era um sonho de menino emuldurado rusticamente pela imaginação,

o menino cresceu e o sonho foi perdendo o brilho.

A moldura foi sendo corroida pelo tempo e pelos bichos famintos

o sonho foi perdendo a cor, a textura a definição.

 

Um dia, o menino já grande recordou o sonho emoldurado rusticamente

e partiu em sua busca.

Não encontrou nada mais senão uma tela esbranquiçada outrora coberta de tintas rugosas e cintilantes

com formas perdidas e traços ocultos.

 

O outrora menino, agora crescido chorou por ter perdido o sonho emoldurado pela imaginação

e as lágrimas que soltou cairam sobre a tela agora esbranquiçada, e soltou ainda mais lágrimas.

Até que, resolveu limpar as lágrimas e o ranho que lhe foi cobrindo o inferior da face,

pegou na tela outrora coberta de cores e texturas e agora esbranquiçada e resolveu pintar outro sonho

e pintou.

E quando terminou de pintar o sonho e a tela outrora esbranquiçada estava já repleta de cores e sentidos e texturas

decidiu emuldurar novamente

e continuou a pintar.

 

E a tela outrora abandonada e esbranquiçada deu lugar a um sonho sempre vivo e em mutação,

e o menino que cresceu não deixou de ser menino nem de sonhar nem de viver.

Há demasiadas telas esbranquiçadas espalhadas por ai á espera de serem retocadas,

e demasiada ausência de quem as queira pintar,

mas o outrora menino, esse, continua a pintar, e a brincar com as cores da vida.

 

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publicado às 20:45

Duas linhas

por Manuel P., em 27.10.15

Caspar David Friedrich [Public domain] - Solitary Tree

 

 Haviam duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

 

Haviam duas linhas que delimitavam a estrada da imaginação para algo inatingível,

e um carvalho seco, e pássaros.

 

Haviam histórias jamais contadas, nunca vividas confinadas no espaço de duas linhas,

vidas inexistentes senão no real imaginário de vários pensamentos

e as gentes dessas histórias viviam circunscritas ao espaço definido por essas duas linhas.

 

Havia um orificio no carvalho abandonado à direita, outrora habitado por homunculos

e criaturas da floresta.

Tempos houve onde o carvalho não estava abandonado e não pertencia ao planalto direito

e as duas linhas não delimitavam um caminho nem se extendiam para além do horizonte.

Tempos houve em que em tudo ao redor do carvalho seco e abandonado do lado direito não faltava vida nem criaturas

humanas, humanoides, humos e míticas

e as histórias de encantar brotavam das folhas outrora verdes.

 

E houve um duende e uma fada, uma princesa encantada.

Um império de pequenas criaturas mágicas estendia-se para além da sombra do carvalho outrora vivo

e um outro império veio do além da sombra do carvalho reclamar a sombra para si.

Houve trovas cantadas nos ramos que conseguiam tocar os céus

e houve meninas encantadas por elas suspirando por entre as raizes.

 

Até que um dia,

havia apenas duas linhas que se estendiam para além do infinito rasgando o verde dos prados

e uma àrvore abandonada no planalto direito.

Não havia água nem sede, havia verde e pássaros famintos.

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publicado às 20:28


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