Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Maria que ria aos domingos de manhã

por Manuel P., em 25.05.16

 

    Maria acordava já a manhã ia bem longe, tomava o pequeno almoço, praticava a higiente matinal, punha a farda de trabalho que lhe assentava que nem uma luva e saia para o trabalho. Era assim todos os dias, ou pelo menos quase todos.

 

    Não havia melhor do que Maria no seu ramo, nenhuma alma tinha tanta versatilidade ou colocava tanto emprenho para que o produto final sai-se o mais perfeito possível, e Maria era, durante a semana, alvo de cobiça e olhares invejosos.

 

    Ao Domingo de manhã, Maria tinha uma outra rotina. Acordava cedo, bem cedo, vestia o vestido creme, estilo conservador anos 50 e abalava para a igreja. Não se pode ser totalmente perfeita, todas têm os seus pecados e Maria sabia-o como ninguém. Sentada no fundo, Maria contemplava o desprezo. O Manuel do talho roçou os olhos nela durante o Pai Nosso, encostando-os rapidamente ao chão. Afinal, os prazeres da carne são um pecado mortal, ou devem ser, de acordo com o homem de batina, padre a tempo inteiro ao fim de semana, pecador às terças entre as 11 e a 1 da manhã.

 

Durante meia hora, uma comunidade inteira fingia elevar o seu coração aos céus, em busca da purificação e beatificação, quando na verdade, na crua verdade, metade tinha o sangue a fervilhar de ódio e desprezo, enquanto a outra metade orava a um Deus dos prazeres da carne.

 

A tudo isto Maria achava piada. Maria tinha um sentido de humor estranho a que apensa metade da comunidade achava piada, à excepção do domingo de manhã, pois claro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:39

Noite

por Manuel P., em 31.10.15

Por Lluís Rigalt (1814 - 1894) (Details of artist on Google Art Project) [Public domain], undefined

 

 

A noite prolonga-se pela escuridão dentro embrulhada num silêncio sem fim

e ao longe ecoa os gritos do teu nome.

Faz frio.

 

A lua intermitente por entre as nuvens outrora brancas clama o teu nome

e os bichos taciturnos percorrem em busca do teu sabor

e a noite prolonga-se sem fim pela escuridão.

 

Nas colinas erguem-se castelos

e nos vales as flores cobrem-se de neblina e orvalho,

lagrimas da tua ausência.

Faz sede.

 

E o riacho ao longe não corre

e os peixes hibernam sem sentidos

e a noite cobre-se de escuridão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:25

Estilhaços de ti

por Manuel P., em 30.10.15

 

 

Há estilhaços do beijo que não deste espalhados pelo jardim,

e onde as flores não crescem e o sorriso ímpio das formigas prevalece

pedaços do que não houve de ti não esmorece, cresce pela madrugada fora.

 

Nas sombras da laranjeira o herege compactua.

É manhã ou noite ou por do sol, pois a luz tolda os sentidos

e a tarde esmorece e estremece só de pensar em ti.

 

E, no entanto, nesses estilhaços de ti espalhados pelo jardim

há uma refracção impossível de explicar.

Um brilho indómito, um arco-íris permanente e opulente.

 

Quero limpar o jardim, preciso de o fazer,

mas contigo a meu lado.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:13

sonho

por Manuel P., em 03.10.15

 

Quero em ti encerrar os meus sonhos

enterrar os meus suspiros

e soterrar a minha vida.

 

Se ao menos fosse tudo tão fácil

quanto escrever uns miseros versos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:07

Líbido

por Manuel P., em 27.08.15

 

 

Conheci um gajo que tinha a líbido no anús,

sempre que amava só fazia merda.

Conheci outro que a tinha na ponta dos dedos dos pés,

ao amar, espalhava-se ao comprido.

 

É muito curiosa essa líbido,

serve de desculpa para tanta estupidez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:12

Um CERN para o amor

por Manuel P., em 27.08.15

 

Há uma teatrilidade exacerbada nos dias dos amantes

as mãos geometricamente dispostas sob as leis da física

a actração magnética dos olhares

a polaridade exacerbada dos lábios.

 

E, no entanto, os métodos quânticos são incapazes de descrever os pequenos detalhes,

sim, porque o amor esconde-se nos detalhes mais infimos da quantica amorosa.

Ai a ciência não chegou por ora.

 

Há poemas exploratórios, tratados psicológicos e fisiológicos

opiniões de Freud e peças de shakespeare

seratonina produzida artificialmente

mas nenhum CERN para o amor.

 

E deveria haver um grande CERN para os amantes,

que procura-se a sua essência até à mais pequena partícula, qual bosão de higgs.

Porque se o bosão de higgs de é a particula de Deus e Deus inventou o amor

deve haver um rasto da sua fabricação,

e deve ser possível sintetizar e replicar o amor que um dia alguém sentiu

e usar a analítica, a física e a química e a quântica,

desfragmentar em pequenas partículas e voltar a juntar tudo novamente.

 

Talvez seja idiotice minha, mas deveria haver um CERN para o amor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:43

Mergulho

por Manuel P., em 15.08.15

 

 

Queria mergulhar nos teus braços e adormecer ao som estridente da noite

percorrer os vales do teu corpo de norte a sul e terminar com os corpos alinhados

numa simbiotica disposição.

 

Não te quero pelo que tens, mas pelo que és

pelo que me fazes ser

e sentir.

 

Não anseio a volubilidade da posse, mas a incerteza da simbiose,

a atracção química das marés. Agora rebentanto aos meus pés

mais distante num futuro breve

mas sempre retornando ao mesmo delirio constante.

 

Num mundo onde as palavras vão perdendo os sentidos

e as forças das físicas prevalecem sobre tudo o resto

procuro um porto de abrigo

onde o sonho possa atracar .

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:30

Ponto final.

por Manuel P., em 14.08.15

 

Todas as frases deveriam terminar num ponto final

Mesmo as que terminam em exclamação.

 

Quando me deste as reticências com sabor a vírgula fiquei à espera,

e esperei, e esperei. Julguei que fosse continuar a história,

repleta de pontos de interrogação e exclamações,

mas o desenrolar não veio, surgiu antes a angustia

velha madrasta do desespero.

 

Quando dei por conta, não eram reticências, mas sim três pontos finais.

Um para o fim do que fomos contruindo, outro para o fim do que estavamos a viver, outro para o terminar do sonho.

 

No fundo, à excepção do ponto final, todos os restantes sinais de pontuação são vagos e inócuos

de interpretações diversas.

Tinhas usado um só ponto final e eu teria já tido usado o ponto de exclamação a triplicar múltiplas vezes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:41

Amor lívido

por Manuel P., em 08.08.15

 

 

Há vidas suspensas em gargalos vazios

e familias pairando numa dança de éter.

 

Ele ama-a, não há dúvida

ele ama-a.

 

Um amor com aroma a frutos silvestres e travo de ervas frescas

consumido gentilmente fresco.

 

Um amor que penetra a pele, que suspira

tatuado a timbre lívido para a eternidade.

 

E no fim, por vezes, a morte separa para todo o sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:58


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D