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O Grito

por Manuel P., em 29.07.15

 

 

Há um suor a guelras e cágados nas calçadas da vida.

As pessoas chegam e partem sem nunca mexer os pés.

As paredes graníticas tremulam com os gritos das castanhas mal assadas e os pássaros não esvoaçam.

 

Ao longe um grito, somente um grito.

 

Uma criança mergulha na espuma da inocência como se não houvesse ontem e os pais transpiram desespero. Um grito ecoa no vazio.

 

As calçadas enchem-se de passos murmurantes, as janelas estilhaçam com os rostos fechados e indignados pelo grito.

E ao longe, a criança solta um riso infernal.

 

Os esgotos estremecem, as árvores esvoaçam pelo ar chilreando enquanto as raízes soltam pequenos pedaços de terra fresca. Uma minhoca cai dos altos céus.

A transparente inocência de uma criança acorda os mortos e moribundos, e os pais falecem de aflição, levemente, pé ante pé como um elefante humano numa loja de porcelana.

E há risos e corridas e joelhos feridos.

 

Quem nunca feriu um joelho que atire o primeiro silêncio.

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publicado às 11:51



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