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O teu silêncio

por Manuel P., em 30.07.15

 

O grito do teu silêncio lasciva-me a carne

e os meus ossos esfumaçam-se pelos oceanos.

 

Não há dia nem noite nem madrugada,

apenas uma névoa cinzenta coberta de maresia. Hoje é dia

e amanhã um novo será. O céu cobre-se tal como ontem se cobriu e cobrirá amanhã,

mas o sangue da tua palavra, a seiva do teu ser hevitará as ruas e as esquinas e as praças.

 

Talvez seja tarde para nós, talvez somente cedo.

Mas os bardos continuam a ecoar pelas àrvores como pássaros escamados e as rosas a florir de cores vibrantes

e no fim do dia não apareces.

E cai a noite, e nasce o dia.

 

E a lua nasce e desaparece continuadamente a um ritmo desconcertado, vibrante

Como o pêndulo de um relógio diurno, como a maresia de uma fonte nocturna.

 

Há sede, há fome, há falta de alimento.

Há tanto para dar e ninguém para receber.

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publicado às 15:25

O Grito

por Manuel P., em 29.07.15

 

 

Há um suor a guelras e cágados nas calçadas da vida.

As pessoas chegam e partem sem nunca mexer os pés.

As paredes graníticas tremulam com os gritos das castanhas mal assadas e os pássaros não esvoaçam.

 

Ao longe um grito, somente um grito.

 

Uma criança mergulha na espuma da inocência como se não houvesse ontem e os pais transpiram desespero. Um grito ecoa no vazio.

 

As calçadas enchem-se de passos murmurantes, as janelas estilhaçam com os rostos fechados e indignados pelo grito.

E ao longe, a criança solta um riso infernal.

 

Os esgotos estremecem, as árvores esvoaçam pelo ar chilreando enquanto as raízes soltam pequenos pedaços de terra fresca. Uma minhoca cai dos altos céus.

A transparente inocência de uma criança acorda os mortos e moribundos, e os pais falecem de aflição, levemente, pé ante pé como um elefante humano numa loja de porcelana.

E há risos e corridas e joelhos feridos.

 

Quem nunca feriu um joelho que atire o primeiro silêncio.

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publicado às 11:51

Um mundo sem ti

por Manuel P., em 29.07.15

 

Há um certo vazio nos dias em que não estou contigo.

Percorro as ruas e os campos, e não sinto o cheiro fas flores ou o cantar dos pássaros,

E nem as madrugadas têm aquela luz polvilhada de maresia.

No fundo, a vida continua sem ti como sempre continuou, calma, serena, turbilhante.

Mas a tua presença, mesmo que distante enche-a de cores e cheiros.

Há uma notável diferença entre tu e o resto

Há uma notável ausência de gritos e cantos quando não estás

e os pardais não esvoaçam por ti.


Haverá pois um destino encantado

Longe do presente

onde o ausente não se encontre.

 

Haverá pois um mundo onde a tua imagem se encontre reflectida nas águas do mar,

onde o teu rosto esteja recortado por entre as nuvens que saltitam nos azuis dos céus

e o brilho do teu olhar se reflicta na lua.


Talvez.

Mas mesmo assim, os rios continuam a correr incessantemente para o mar e a terra não pára o seu centrifugo girar.

Os gatos não desistem dos ratos e os frutos não param de tentar acertar num alvo imaginário.


Há um certo encanto no mundo contigo,

e,

embora ele continue incólume sem ti,

quando nele mergulhas tudo parece tão diferente e irreconhecível.


Há no Universo dois mundos, e apenas um gostaria de conquistar.




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publicado às 11:33


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